Em Viamão tem comida boa! [Parte 2]

Deixamos os manjericões para trás (confira a primeira parte dessa história) e pegamos a estrada mais uma vez, rumo à Porteira Verde. Seguimos a direção do David e encontramos com o Airton, que nos aguardava na entrada do terreno. Ele abriu a porteira com um sorriso no rosto e pediu pra gente parar na primeira casinha. Com uma porta e duas janelinhas na fachada, a antiga casa de ração foi transformada na fabriqueta da Porteira. Descemos e a calma se instalou mais uma vez. Entre alecrins do campo e uma vista arrebatadora do vale está a casinha onde é feita toda a produção deles.

Na cozinha, um antigo fogão a lenha trazia a nostalgia. Airton contou pra gente que quando ele comprou o terreno havia um curral e uma casa de rações, ele transformou as construções com suas próprias mãos e muita criatividade. O curral deu espaço para a sua casa e a casa de rações virou uma casinha com banheiro, um quarto e uma cozinha, lar da sua mãe numa época em que ela precisava de cuidado, atenção e muito amor de filho. Há dois anos a casinha foi transformada no local de produção, onde receitas são inventadas, testadas e aprovadas. O fogão a lenha ainda traz charme, mas as produções não são mais feitas nele. Numa cozinha equipada, as frutas se transformam em geleias conforme a estação. Quando é época de limão capeta, toda a produção excedente do vilarejo vem pra cozinha da porteira, o objetivo é transformar alimentos tão perecíveis em algo mais durável que pode ser consumido por mais tempo, além daquele em que está disponível pela natureza. Da mesma forma surgiu a geleia de goiaba vermelha, nossa mais nova paixão. Com uma cor vibrante, rosa e uma textura leve e cremosa ela tem nos enlouquecido, mas segundo eles ela não tem tanta saída, já que as pessoas estão familiarizadas com o processo de transformação da goiaba. Tivemos a nossa primeira surpresa na cozinha da porteira.

A segunda surpresa foi quando conhecemos a desidratadora que está sendo palco da mais nova produção deles, as frutas desidratadas. Quando começou, a Porteira trazia sempre consigo os pacotinhos de banana passas que deixavam as pessoas em tempo de perderem o juízo, mas essa produção infelizmente teve que ser suspensa por causa do alto preço da matéria prima, agora eles voltaram com tudo, fazendo experimentos com outras frutas. Chips de banana, abacaxis, maçãs, mangas tudo isso é colocado na desidratadora para ela fazer a transformação de alimentos riquíssimos. Tudo começou quando o Airton (nesse ponto é preciso saber que ele faz tudo, tudo, tudo, magistralmente com as próprias mãos e ajuda de algumas ferramentas), foi chamado por um vizinho para construir uma desidratadora. Ele aceitou a encomenda e fez uma pequena, com algumas bandejas, o vizinho usou ela para a desidratação das próprias bananas que iam perder no pé, depois de um tempo cansou do processo e ela foi trazida para a Porteira continuar o trabalho. Recentemente Airton decidiu construir uma desidratadora elétrica ainda maior e melhor e hoje ela funciona a todo vapor para produzir aqueles pacotinhos que você encontra na feira.

Da produção de licor a frutas desidratadas, tudo é feito num processo calculado por mentes brilhantes, hiper criativas, que não tem medo de trabalho e topam qualquer desafio. No estoque, os temperos colhidos e processados ficam aguardando a hora de serem misturados e se transformarem, por exemplo, em sal funcional, as geleias se empilham esperando a próxima feira e o licor aguarda enquanto amadurece sabor e equilíbrio. Entre risadas e sorrisos eles nos apresentam a cozinha planejada e nos contam sobre o trabalho não tão planejado assim. David era arquiteto e foi o primeiro do grupo de amigos a se mudar para aquela terra. Comprou um terreno no vale e, junto com a esposa Gena, construiu sua casa. Airton veio alguns anos depois, se apaixonou pelo lugar, e, quando começava a construir uma casa no terreno do amigo, ficou sabendo da venda das terras onde hoje é sua casa. Junto com eles veio a Cirlene, a Clarissa, e vários outros amigos que reinventaram o modo de viver a vida.

Quando saímos pela cozinha, um jardim de suculentas se abriu. Era berçário, floricultura, escultura, ateliê, a indescritível forma de produção e finalização dos vasos ornamentais. Essas belezas hoje podem ser encomendadas e não ficam mais disponível nas feiras para retirada imediata por causa da logística dispendiosa, onde muitas plantas morriam no processo de transporte até a cidade. Quando perguntamos ao Airton como ele fazia os suportes dos vasos, fomos levados até a sua oficina. Em meio a materiais resgatados de ferros velhos e ferramentas são criados objetos únicos, de valor inestimável. David também não fica de fora e com toda sua habilidade desenvolve vitrais. Nossa visita foi interrompida pelo delicioso som de “o almoço está pronto pessoal!”


Entendemos a essência desse “deixa que eu faço” ao entrar na casa do Airton. Tudo ali, puxadores, mesas, bancos, fogões, pias, box, janelas, paredes, foram construídos pelo artista. À mesa: todos os amigos reunidos, o almoço feito a várias mãos, os sorrisos de dever cumprido e as histórias de cumplicidade nos fizeram descobrir que naquele vilarejo que reuniu tanta gente boa o “deixa que eu faço” é sempre acompanhado de “deixa que eu te ajudo”. Após o almoço o dia descortinou, o sol se abriu e pudemos compreender o que aquela região guardava, além de boas histórias e comidas deliciosas. Pegamos a estrada de volta para a capital cheios de alegria no peito, contaminados por essa energia de rede que faz tudo girar.


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